Préstimo

PRÉSTIMO

O Préstimo é uma das mais vastas freguesias do Concelho de Águeda e pertence ao conjunto daquelas que, mais a oriente, se apoiam nos contrafortes serranos do Caramulo. Alguns dos seus lugares encravados nas pregas dos montes, pelas dificuldades de acessos, suportaram outrora uma existência de grande isolamento. É terra muito antiga habitada em tempos recuados no desenrolar da história das nossas comunidades, fixadas neste recanto ocidental da Península Ibérica. Tem uma gruta considerada pré-histórica e, neste território, explorou-se o minério de chumbo. Foi vila e sede de Concelho medieval com a designação de Soutelo do Monte, incluindo Macieira de Alcoba e alguns povoados de Valongo, Castanheira e Talhadas. D.Manuel I concedeu-lhe foral em 6 Fevereiro de 1514. Foi terra reguengueira que teve vários donatários; Fernão de Miranda era seu donatário em 1502. O Censo da população da Estremadura, ordenado por D. João III em 1527, regista que “Este concelho de Préstimo tem asy nome e não há lugar que asy se chame porque he o concelho de Soutelo do Monte.”

PRÊAMBULO

Não é caso singular, mesmo no nosso concelho, existir uma freguesia e seu topónimo não figurar a designar, normalmente a sede, mesmo que só tenha uma casa, como sucedeu com Castanheira, que por ter só a igreja do pároco, se denomina Residência. Estão nesta circunstâncias além do Préstimo, Aguada de Cima, Recardães e Segadães, que indicam assim regiões e não povos. Préstimo documenta-se já concelho em 1527. Designava-se pela antiga sede concelhia, Soutelo do Monte. Além desta anomalia, sobreleva a todas, na mudança de senhorios e um tanto na tardia enfiteuse, na pessoa do Barão de Quintela. Contestação popular que faz desaparecer alguns marcos, por colocação irregular. Aposentadoria com adequadas construções na Quinta da Serrascosa. Nota de protecção à lavoura, pelo Rei Lavrador. Presença da mais esbelta ponte regional e apreciável arquitectura, na aposentadoria e respectivo mobiliário.

DONATÁRIOS

Ligada à história do Préstimo está a Quinta da Serrascosa, cujo edifício era a Casa da Câmara, a domus municipalis, o tribunal, a cadeia, enfim modelar aposentadoria. Seria hoje, electrificada, com estrada e telefone, uma quinta de recreio, de sonho, pois fica numa enorme enseada do rio, cheia de plantas raras e verdura de toda a espécie, fora dos torvelinhos e barulhos do mundo. Em 1502 era de Fernão de Miranda, mencionado, que a emprazou, em fateosim perpétuo a Fernão Vaz e sua mulher Beatriz Anes. Documente-se com a designação de «Prazo da Serrascosa. Encabeçamento…»

MUNICIPIO DO PRÉSTIMO

Em pleno período das descobertas, estavam assim distribuídos os seus 60 vizinhos: Soutelo, a sede, 6; Louresela, 4; Vale d’Égua, 1; Salgueiro, 8; Macieira, 9; Ribeiro, 1; Vidigueira, 1; Rio de Maçãs, 1; Carvalhal, 13; Vilarinho, 4; Cortes, 1; Venda da Córrega, 2; Maceida, 3; Seixo, 1; Frágua, 1; Cambra, 3; Casal, 2; Cernada, 1; Vale do Lobo, 1; Felgarinho, 1; Serra de Cima e do Fundo, 2. O concelho era da provedoria de Esgueira.

SITUAÇÃO JUDICIAL

Depara-se-nos, neste antigo município, uma característica aposentadoria, a domus municipalis, casa da câmara, tribunal, cadeia, etc. sem descurar a administração da Quinta da Serrascosa, a que, para maior evidência, ainda voltaremos a fazer referência em locais e prismas diferentes. Toda a arquitectura e afins, obedeceu aquele plano, ou ideia mater de casa de quinta, habitação do colono, família, albergaria, a que na alta idade média se diria a típica «uilla» romana, com os tais adscritos, os tãos falados quão ignorados servos da gleba, vilas tão frequentes mormente a norte do Mondego, descritas magistralmente por Alberto Sampaio, mas com o fim principal de administração jurídica. Foi nesse local que, em 1822, se deparou o tal montão de ferros (cadeias), com fechos. Em 1920, como lembramos, foi do general João de Almeida.

MATRIZ PAROQUIAL

Externamente, é do característico estilo setecentista, o templo, dedicado a São Tiago, internamente é do sec. XVIII, sendo a torre de construção recente, feita de granito, extraído perto, pois no local ainda predomina o xisto. No arco transepto, um alto relevo, da escola de Coimbra, sec. XVI, gótico inicial, sugerido do mestre das Alhadas. As suas mais antigas imagens são as de S. Tiago e S. Martinho, sec. XV; Trindade, sec. XVI. Muito rara, embora não única no concelho; mas valiosa, é a custódia, modelo cálix-real, datada de 1562 e cuja inscrição, no pé, indica o oferente: «P. Gonçalo do Souto, prior de S. Tiago de Soutelo», mas para a capela de Á-dos –Ferreiros, ficando assim ligada á capela local, que praticamente, o que é raro, mudou de padroeiro, foi primitivamente de Nossa Senhora da Esperança e agora o povo diz Nossa Senhora das Neves. O cálix é artístico e histórico, pois liga-se à obra da capela, pois a arte da capela é evidente na sineirita da empena, óculo proporcionado, a porta de torsa com cornija e as duas janelitas, cunhais também com a respectiva terminação ou cornija, tudo a falar dos promoventes e do canteiro e a dizer que o granito logo além e perto tinha aqui boa aplicação. Ficávamos pesaroso se não disséssemos tudo o que o P. Gonçalo fez gravar no pé do cálix que ofereceu, composto em 8 linhas, trabalhos a punção, em graciosas grinaldas e também fica muito bem na casa que o saudoso e bairrista P. Costa ofereceu à freguesia e é das melhores, no estilo e arte de toda a paróquia, sec. XVII, artísticas cantarias de granito; junto um cruzeiro, também do sec. XVII, astes largas, observando-se que no lugar outros existiram, estando seus restos aplicados nas construções, aqui e além. Foram testemunhas mudas, presença religiosa, de tantas gerações e de tantas viaturas que ali na terra dos ferreiros, a (Póvoa)-dos-Ferreiros, mandavam concertar as viaturas e entregavam a correspondência aos almocreves, que os povos lembram com tanta insistência, como se fora recentemente. Tem assim o Préstimo duas peças de prata artística e raras: o cálice-custódia e este outro cálice da capela de Á- (Póvoa)-dos-Ferreiros.Acima disse que foi obra do P. Gonçalo, mas não é a realidade. A verdade é ter sido o povo do lugar que anuio ao seu apelo e também o próprio o mandou fazer para o lugar. Por aqui passava a célebre estrada romana do Marnel a Viseu. Além da mencionada casa, oferecida para residência paroquial pelo P. Costa, em puro estilo, de janelas de avental, rectangular escadaria lateral e um grande arco a servir de abrigo à porta da loja. Mas embora mais simples, há outra do mesmo sec. XVII, um tanto mais simples e térrea.

A MAIS ESBELTA PONTE DA REGIÃO

Viseu ficou ligada a via militar romana Porto-Lisboa-Braga-Chaves, por uma estrada também romana, que saía do Marnel, para aquela célebre cidade beiroa. Foi contruida no final do sec. III ou princípios do IV, como documentamos marcos miliários que todos observaram nas Benfeitas e no Reigoso e recentemente levados para o museu de Viseu. Provam-no, também as típicas calçadas romanas à vista na região perto das Talhadas, Cabeço de Cão, Destriz, etc. onde há um troço de 2 quilómetros. A recente estrada de Águeda à serra de Alcoba, aproveitou, aproximadamente o traçado daquela quase bimilenária via. Aqui ou além observam-se fundos rasgos dos rodados dos carros e até, perto da ponte do Préstimo, no leito do próprio rio, nas passagens a vau. Nela se construiu uma ponte de um amplo arco, pois tem de um vão 19,20 e bem alto, 15 mts., 6,30 de largo, lançamento em atenuada ogiva. O local é temeroso, ermo, o rio quase em rabina, e a ponte surge de surpresa, atacando as duas margens do Alfusqueiro, sem acessos coerentes convenientes. Teria ruído a anterior numa cheia dos secs. XVII ou XVIII, restando no rio, a jusante, blocos de alvenaria e cavas dos rodados dos carros. Não se historia como romana a presente que é do sec. XVIII; também a precedente nada prova que o tenha sido, porquanto as pontes, normalmente, eram de madeira. Quando se construíam de pedra logo se classificavam de pretina, pedrinha, feita de pedra, tal como na estrada romana em Aguada de Baixo e na de Almear, a ligar a Aveiro. A lenda que se mantém ao vivo, é alusiva à actual ponte e de como se uniram as duas peças em local tão agreste. Em períodos de invernia é o belo horrível, pelo barulho das águas, contra os rochedos, se no verão, frescura, arvoredo ou escarpado rochedo é de um anacronismo confrangedor. É dos locais convidativos do concelho.

NÓTULAS No lugar de Á- dos - Ferreiros, cujo topónimo denota a presença de oficinas daquela profissão, na estrada romana do Marnel a Viseu e que, por simplificação inicialmente se dizia a Póvoa dos Ferreiros, tal como A- do – Fernando, a Póvoa do Fernando, nome este que talvez revele o primeiro colono ou o donatário da vila, ou, para simplificar, o primeiro morador. A arte de ferraria, para assim o topónimo prevalecer a outros, era por certo mais desenvolvida em Á- dos – Ferreiros. Já lembrei os marcos miliários das Benfeitas, freguesia de Dextriz, a seguir às Talhadas; em Fonte Fora estavam os marcos de Reigoso, retirados para Viseu em 1970. Bem podiam ter deixado um exemplar em cada terra, agora que há tanto gosto pelas coisas antigas. Quem quisesse fosse lá ver. Fomos lá, em vão, 1981, julgando ainda lá estarem. Do mesmo modo outras famílias lá foram em vão. E lá no local as coisas têm outro sabor. Também em frente das ruínas da antiga matriz se observava, até 1974, a calçada romana, soterrada em 1977, pela nova estrada do local. As viaturas da estrada romana quase caducaram com o caminho de ferro da Beira Alta, 1882, que pôs também termo a estas multisseculares industriais regionais. Quem diz a indústria diz comércios, de toda a ordem. Nas Talhadas mantém-se o edifício da histórica albergaria, à vista das pedras talhadas, que deram o nome à terra e pelo meio das quais passava a via romana. Curioso que, os rendimentos da igreja de Macieira, iam para esta albergaria. Demais foi a igreja que manteve as obras de caridade por toda a idade média. 2- A calçada típica, a que aludimos encontra-se em Doninhas, em Cabeça de Cão, indo de Á- dos – Ferreiros, donde segue à Urgueira. Foi pena que, ao fazer o troço de estrada, em frente à igreja, não tivessem mantido a calçada romana e conduzido a nova via um pouco e logo ao sul, encostada. Também lá ao fundo deviam ter feito o mesmo junto à capela. Preservem-se os troços existentes. O turismo aproxima-se a olhos vistos desses monumentos. A valha igreja é um exemplar digno de monumento nacional. De mais no seu chão e no adro além da pia baptismal e campas, estão os restos mortais de muitas gerações de nossos avós. A estrada da fronteira vai levar-lhes muitos turistas. 3- O ribeiro da Corga tinha 7 moinhos de 1 casal de pedras, até à motorização; após a 2ª Grande Guerra, das maiores e mais antigas indústrias, vindo a decair desde 1945. É assim mais uma que a olhos vistos desapareceu. E com elas a óptima farinha. 4- Algumas casas com motivos estilísticos do século XVII, já foram focadas. As de Á- dos -Ferreiros, a destacar a residência paroquial, oferta do P. Costa, residência e óptimo quintal. Acapela local, do séc. XVII, documenta-se nas Informações Paroquiais 1721, bem como as de Cambra, Sernadinha, Carvalhal, Salgueiro, Lourizela, e Quinta da Serrascosa, ao todo 7 ermidas, nesse data. Há outros documentos que as informam. 5- A confraria do Santíssimo documenta-se antes de 1721 e, além de acompanhar os irmãos, custeava os ofícios de 3 lições. Citações Magalhães Colaço (1) obra transcrita, sob tít. Nos Alvores do séc. XVI; 1ª DC. (2) Além de Viterbo, Elucidário, GB. Hist. da Ad. Públ. e todos os juristas. (3)- Pires de Lima, F. A., Paulo Merêa, Marcelo Caetano, versam o caso. (4)- Chanc. de D. Dinis, TT. L. II, fls. 124; (5)- Chanc. D. Afonso V, TT.; (6)- Encicl. Verbo, t. Quintela e Quintelade Leis, Impr. Nac., ed. 1837.